CRMV-RS








Comissão Pecuária Orgânica


A Comissão Pecuária Orgânica foi instituída em função das seguintes justificativas:

- A necessidade de debate e expansão do conhecimento junto a universidades, sociedade e profissionais, quanto às questões que envolvem a pecuária orgânica; 

- Considerando a crescente demanda dos Conselhos Regionais quanto a informações e aspectos que levem em consideração o meio ambiente, a economia e o social, que envolvem a pecuária orgânica;

- Considerando que é papel do médico veterinário e do zootecnista se atentar a estes aspectos.

 

Objetivos

- Promover o debate científico sobre a pecuária orgânica, estudar a atual definição, abrangência, estruturação e disciplina, propondo alternativas para o seu aperfeiçoamento e expansão;

- Servir como órgão de consulta e assessoramento técnico da diretoria do CRMV/RS em questões relacionadas ao tema e a Medicina Veterinária e Zootecnia

- Difundir perante a sociedade a atuação e a importância do médico veterinário e zootecnista neste assunto, valendo-se, para tanto, dos meios disponíveis na imprensa e mídia eletrônica para divulgação;

- Promover reuniões periódicas e contribuir para o debate acerca dos aspectos relevantes da pecuária orgânica;

- Apoiar a realização de cursos, seminários, conferências, estudos em geral e a publicação de trabalhos científicos, revistas e livros, objetivando a capacitação dos profissionais que queiram atuar na área;

- Editar instruções e manuais visando o aperfeiçoamento da atuação profissional dentro de sua área de abrangência;

- Auxiliar as demais comissões temáticas e outros órgãos colegiados e fóruns com participação do CRMV-RS, sempre que a sua área de conhecimento for requerida.

 

Integrantes

- Méd. Vet. Angela Pernas Escosteguy CRMV/RS 01538 – Coordenadora

- Méd. Vet. Márcia Monks Jantzen CRMV/RS 06776

- Méd. Vet. Lisiane Feck Ávila CRMV/RS 07902

- Méd. Vet. Michele de Castro Iza CRMV/RS 08213

- Méd. Vet. Carlos Roberto Vieira da Cunha CRMV/RS 05237

- Méd. Vet. André Macke Franck CRMV/RS 11073

- Méd. Vet. Eduardo Antunes Dias CRMV/RS 06540

- Méd. Vet. Flávio Zilken Meirelles Figueiredo CRMV/RS 05913

- Méd. Vet. Alexandre Mendonça CRMV/RS 06115



CONTRIBUIÇÕES

05/01/2021

Memória Biocultural: O resgate de diferentes maneiras de criar animais

*Por Eduardo Antunes Dias

 

A criação animal orgânica deve ter na centralidade da ação a sustentabilidade plena do sistema agroalimentar, pois a sua lógica não deve se balizar na maximização da produção e sim na otimização dos processos. Um ponto crucial deste sistema de criação é o resgate dos saberes tradicionais de povos indígenas, de povos originários, de quilombolas e camponeses que desenvolveram a sua maneira de fazer, de criar, escorados na diversidade biológica do ambiente. Essa dinâmica coevolutiva, também denominada de axioma biocultural, parte do pressuposto de que a diversidade biológica e cultural são construções mutuamente dependentes arraigadas em contextos geográficos e históricos específicos.

 

 Porém, o processo de “modernização” da sociedade que aconteceu por meio da tecnologia, da ciência, da industrialização e da urbanização, fez com que os conhecimentos ancestrais fossem relegados a segundo plano, sendo considerados como ultrapassados, arcaicos e inúteis. A dominação da natureza pelo homem branco de origem européia acabou por padronizar os processos de produção de alimento a ponto de sobrepujar muitos saberes ancestrais que acabaram se perdendo ao longo da história da civilização humana. 

 

Na América do Sul, ainda contamos com alguns exemplos que resistiram à pressão colonial do modo de fazer, como a criação da araucana, uma espécies nativa de galinha que bota ovos azuis, a criação de preás (cuy) para a alimentação humana, a criação de alpacas e lhamas para leite e lã e do desenvolvimento de técnicas indígenas para cevar (engordar) peixes nativos e porcos-do-mato. Já o campesinato, como a pecuária familiar, estabeleceu relações socioecológicas de elevada resiliência e sustentabilidade, uma vez que seus arranjos técnico-institucionais se baseiam em um conjunto de concepções comuns aos processos naturais: a diversidade; a natureza cíclica e lenta dos processos biológicos; a flexibilidade adaptativa; a interdependência; e os vínculos associativos e de cooperação. 

 

O Brasil está entre os 10 países que apresentam um grande potencial em relação à memória biocultural por possuir uma enorme diversidade de territórios, cada um com seus centros de diversidade biológica, centros de diversidade lingüística, centros de populações tradicionais e centros de origem e de difusão agrícola e pecuária, ainda com muitos saberes a serem revelados. Este resgate do conhecimento tradicional visa substituir os insumos externos (agroquímicos), tão presentes no agronegócio, por saberes populares (processos biológicos, diversificação das espécies cultivadas/criadas, boas práticas de manejo, práticas de conservação do solo, manejo integrado no controle de espécies espontâneas, etc) que os povos originários já utilizavam desde os primórdios da sua existência. 

 

Ao priorizar as tecnologias de processos, a criação animal orgânica resgata toda essa diversidade cultural do fazer na terra (Agri-Cultura) e vai além, pois insere o componente ecológico nas práticas do campo.

 

*médico veterinário e integrante da Comissão Pecuária Orgânica do CRMV-RS.
 



28/12/2020

A Principal Ferramenta de Transição Agroecológica para a Produção Orgânica de Carne, Leite ou Lã

*Por André Macke Franck

 

Atualmente existe um senso comum de que os produtos orgânicos tem um valor maior de mercado porque tem um custo maior de produção, porque tem menor produtividade, porque não exploram o máximo rendimento animal ou porque requerem maior mão-de-obra em relação aos sistemas habituais de produção. Em alguns casos existe um fundo de razão. No caso da pecuária orgânica, as espécies que dependem de um maior percentual de grãos na dieta, como aves e suínos, o custo acaba se elevando pela dificuldade de fornecimento principalmente de milho e soja certificados, mas para os principais herbívoros de produção, como bovinos e ovinos, existe um método de manejo que contraria esse senso comum, capaz de produzir mais que a média dos vizinhos “convencionais”, com menor custo de produção, respeitando o bem estar animal e com baixo requerimento de mão-de-obra (bem-estar humano). Esse sistema leva o nome de seu idealizador, André Voisin (1903-1964).

 

O Pastoreio Voisin é a alternativa mais simples, econômica, rentável e sustentável, pois está baseada na otimização do uso de pastagens permanentes, colhidas pela vaca em seu ponto ótimo de crescimento. O sistema de manejo de pastagens desenvolvido por André Voisin foi por ele denominado de Pastoreio Racional, sendo que seus discípulos em homenagem póstuma passaram a chamá-lo de Pastoreio Racional Voisin (PRV). Por questões semânticas, alguns autores, com os quais divido o mesmo argumento, denominam o sistema apenas de Pastoreio Voisin, por entendermos que o sistema Voisin, é por sua natureza um sistema racional, não cabendo redundância ou pleonasmo.

 

O sistema racional tem como base primordial, o fornecimento de pasto, colhido pelo animal, na proporção mínima de 12% do peso corporal de matéria verde ao dia. A suplementação com concentrados e/ou forragens conservadas é feita somente de forma complementar, tornando o custo de produção de leite, carne ou lã em Pastoreio Voisin (PV) inferior aos sistemas convencionais. Mais do que isso, Lorenzon (2004) descobriu que, quanto maior o índice de adoção dos princípios do Pastoreio Voisin, melhor o resultado técnico e econômico, e maior o grau de satisfação do produtor.

 

O agora saudoso Luiz Carlos Pinheiro Machado (1928-2020), em seu livro Pastoreio Racional Voisin-Tecnologia Agroecológica para o 3° Milênio, descreve o sistema como a melhor alternativa de produção bovina sustentável que se conhece. Baseado nos preceitos de Voisin, outros métodos foram adaptados e estão ganhando espaço, como a Pecuária Regenerativa, Manejo Holístico, Pastoreio de Ultra Alta Densidade, etc. Todos seguem a metodologia estudada, planificada, testada e comprovada por Voisin em sua granja na França.

 

Como relata meu grande mentor e amigo Humberto Sorio no seu livro Pastoreio Voisin- Teorias, Prática e vivências, André Voisin em sua essência, buscou reproduzir o hábito natural das grandes manadas ancestrais e também o sistema adotado pelos antigos pastores, que conduziam metodicamente seus numerosos e densos rebanhos a pastos novos, no ponto correto de consumo, e que devido ao instinto natural de competição, eram pastejados de maneira voraz, deixando para trás um terreno “roçado”, e coberto de esterco e urina, proporcionando um ambiente perfeito para a multiplicação da vida no solo. Após sucessivas repetições desse “efeito manada”, toneladas de dejetos aumentam a matéria orgânica do solo, e desencadeiam processos como a trofobiose, o ciclo do etileno e transmutação dos elementos com baixa energia. Nessas condições, teremos pastagens exuberantes, baratas e duradouras, capazes de nutrir saudavelmente nossos rebanhos, sem alterações bruscas nos teores de fibra e digestibilidade, sem riscos de timpanismos, sem riscos de intoxicação por nitratos pelos desnecessários aportes de fertilizantes de alta solubilidade, com ciclos de vida dos parasitas quebrados pelo descanso variável dos piquetes conforme o crescimento dos pastos, pelo maior bem-estar expresso pela docilidade dos animais que veem o humano, não como uma ameaça, mas como o pastor que os conduzirá para um novo e apetitoso banquete em pastagens perenes polifíticas nutricionalmente equilibradas

 

Dentro da visão da agricultura convencional, os sistemas agrícolas e pecuários são subsidiados por energia fóssil, nutrientes de síntese industrial e agroquímicos, o que não implica em sua sustentabilidade ecológica e econômica (GLIESSMAN, 2000). Atualmente, a realidade dos pecuaristas é caracterizada pela tendência, nas últimas décadas, de aumento progressivo dos custos dos insumos e equipamentos, forçando os produtores que desejam continuar na atividade a aumentar sua escala de produção para diluir os custos crescentes de produção

 

Por outro lado, os aumentos de produtividade obtidos com os progressos tecnológicos não têm resultado em aumento de lucro para o produtor. Pelo contrário, têm justificado o estreitamento da margem de lucro por unidade produzida (CANAVER et al., 2011). A qualidade do ambiente, por sua vez, tem sido degradada como consequência dos sistemas agrícolas que fazem alto uso de insumos de síntese química (PINHEIRO MACHADO F° et al., 2001).

 

O pastoreio Voisin é a arte e a ciência de combinar os interesses do pasto e da vaca, através da divisão da pastagem e rotação do rebanho, de forma que o pasto seja colhido rapidamente e possa rebrotar a cada saída dos animais, crescendo até o seu próximo ponto ótimo de consumo. É dessa combinação ótima entre tempo de ocupação e período de repouso, que consiste no sucesso do sistema e a satisfação das necessidades do pasto e da vaca (SALES, 1999).

 

Observamos o elevado status de saúde de animais criados no sistema, problemas corriqueiros e de difícil controle no manejo convencional, como infestações descontroláveis de carrapatos cada vez mais resistentes, surtos de tristeza parasitária, elevado número de mamites, problemas reprodutivos e de cascos em vacas leiteiras, dificuldades em estabelecer um calendário eficiente de vermifugações em ovinos, são praticamente eliminados das criações que seguem o sistema e a rotina ancestral planificada por Voisin.

 

Utilizando corretamente essa ferramenta de transição agroecológica, a produção orgânica certificada, seja ela certificada ou não, deixará de ser uma utopia e se tornará facilmente alcançável e porque não dizer, inevitável. Ganhamos todos, produtores, consumidores, animais, meio ambiente, técnicos... Perdem os vendedores de insumos externos que deixam de visitar essas propriedades, mas o mundo não é dos mais fortes, é dos que melhores se adaptam e eles terão que se adaptar a um mundo mais verde e menos dependente.

 

*Médico Veterinário (CRMV/RS 11.073), extensionista rural da EMATER-RS/ASCAR, integrante da Comissão de Pecuária Orgânica do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul, integrante dos comitês de saúde & bem-estar e gestão e sistemas produtivos da FIL/IDF- Brasil (Fédération Internazionale du Lait-International Dairy Federation), homeopata- UFV-MG, especialista em Agroecologia e Produção Orgânica- UERGS-RS.



06/10/2020

Comissão Pecuária Orgânica promove palestra na Expointer Digital

 

No dia 27 de setembro de 2020, a Comissão Pecuária Orgânica promoveu a palestra Sustentabilidade na Produção Orgânica: Desafios e Oportunidades da Pecuária Orgânica. Confira abaixo o vídeo completo.

 



28/09/2020

CRMV-RS encerra nesta segunda-feira programação na Expointer Digital

Com duas convidadas para falar sobre pecuária orgânica, o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul (CRMV-RS) encerrará sua participação na Expointer Digital 2020 nesta segunda-feira. A partir das 17h30, o evento "Sustentabilidade na Pecuária Orgânica: Desafios e Oportunidades da Produção Orgânica" poderá ser conferido no CANAL 2, em https://www.expointer.rs.gov.br.

 

A discussão será apresentada pelas médicas veterinárias Ângela Escosteguy e Michele Iza, da Comissão Pecuária Orgânica do CRMV-RS com vasta experiência no assunto. Os interessados podem participar enviando perguntas para o whatsapp (51) 99188-5865.

 

Neste domingo, o dia foi marcado pela apresentação de dois temas importantes: o uso da homeopatia em animais de produção e a importância da perícia veterinária em animais de interesse econômico e no agronegócio. O médico veterinário Adriano Echervane, que trabalha há anos com homeopatia, destacou através da apresentação de casos clínicos as vantagens econômicas deste tratamento, que, segundo ele, é uma alternativa eficaz e econômica para doenças como a mastite, por exemplo.

 

Já o médico veterinário Valdecir Castilhos, consultor na área de perícias civis em Meidicina Veterinária, explicou aos participantes sobre a importância deste trabalho e ressaltou que a atividade é privativa de médico veterinário.

 

As palestras ficarão gravadas e após a 83 Expointer serão disponibilizadas no site do CRMV-RS, em www.crmvrs.gov.br. Participe e acompanhe a programação de hoje!



23/09/2020

CRMV-RS terá palestras online na Expointer 2020

Adequando-se às novas necessidades impostas pela pandemia do novo coronavírus, o CRMV-RS contará com uma programação totalmente online na 83ª Expointer desenvolvida por algumas das nossas Comissões Assessoras. Conforme já anunciado pela Secretaria de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do Estado (SEAPDR) a tradicional feira agropecuária, que este ano acontecerá dos dias 26 de setembro a 4 de outubro, terá quase todos os seus eventos no formato digital.

 

Serão 4 canais web com notícias, debates, entrevistas, provas técnicas, leilões de animais, lançamentos de produtos e etc. Este ano, excepcionalmente, por medidas de segurança, a Casa do Médico Veterinário situada no Parque de Exposições Assis Brasil não terá atendimento ao público.

 

Confira a programação do Conselho na 83ª Expointer:

 

27 DE SETEMBRO - 10h às 11h

 

Homeopatia em Animais de Produção - Casos Clínicos Comentados

 

Médico Veterinário Adriano Ribeiro Echervane de Souza - Diretor da Curantur Medicamentos Veterinários e Consultor em Administração Rural, Bovinos de Corte e Leite e Agroecologia.

 

Transmissão pelo CANAL 3 da Expointer Digital.

 

27 DE SETEMBRO - 13h30 às 14h30

 

Importância da Perícia Veterinária nos Animais de Interesse Econômico e no Agronegócio

 

Médico Veterinário Valdecir de Vargas Castilho - Especializado em Perícia Forense na Área Civil e Assistente Agropecuário aposentado da Secretaria de Agricultura de São Paulo.

 

Transmissão pelo CANAL 3 da Expointer Digital.

 

28 de SETEMBRO - 17h30 às 18h30

 

Sustentabilidade na Pecuária Orgânica: Desafios e Oportunidades da Produção Orgânica

 

Médica Veterinária Angela Escosteguy - Presidente do IBEM e Coordenadora da Comissão Pecuária Orgânica do CRMV-RS

 

Médica Veterinária Michele de Castro Iza - Auditora Fiscal Federal Agropecuária e Integrante da Comissão Pecuária Orgânica do CRMV-RS.

 

Transmissão pelo CANAL 2 da Expointer Digital.

 

Promoção: Comissão Pecuária Orgânica do CRMV-RS

 

ATENÇÃO: Os eventos são gratuitos e não é necessário inscrição prévia. O acesso aos canais será pelo site da Expointer Digital, em https://www.expointer.rs.gov.br/. Você deve preencher o cadastro simples e então selecionar o canal desejado conforme informado na programação (só estarão disponíveis a partir do dia 26 dado o início da feira).

 

Participe também enviando perguntas para o whatsapp 📱 (51) 99188-5865 (com Nathália) antes e durante o evento. As dúvidas serão respondidas pelos palestrantes.



16/09/2020

A produção animal como caminho para a sustentabilidade dos sistemas orgânicos

*Por Flávio Figueiredo

 

A produção orgânica concebe a preservação ambiental com estímulo à biodiversidade, um manejo regenerativo do solo e a produção de alimentos seguros, gerando a obrigatoriedade da construção de sistemas sustentáveis de produção. Neste contexto, a produção animal pode desempenhar um importante e fundamental papel. Como exemplo, a pecuária desenvolvida em campos nativos pode ser considerada como um modelo para estruturação de um sistema de produção animal orgânica. Os principais atributos desse sistema são o bem-estar animal, a conservação e promoção da biodiversidade, a ciclagem espontânea de nutrientes do solo, a conservação da cultura e da qualidade de vida da população envolvida e, sobretudo, a produção de alimentos seguros e de alta qualidade, os quais consolidam a sustentabilidade dessa atividade em diversos biomas.

 

Considerando a realidade atual do Brasil, o número de propriedades orgânicas que incluem produção vegetal é muito maior quando comparado àquelas que exploram a produção animal. No entanto, muitas dessas propriedades de produção vegetal exclusiva apresentam dificuldades em construção de sistemas sustentáveis. Um dos fatores mais corriqueiros é a necessidade de “importar” fertilizantes biológicos, como o esterco de aves, de outros locais para suportar seus sistemas de produção vegetal. Quase que invariavelmente, esse material é oriundo de sistemas convencionais de produção animal, onde os “quimiosintéticos” são utilizados rotineiramente.

 

A compra desse material traz consigo inconvenientes importantes, tais como o impacto ambiental do transporte dos produtos, a possibilidade de introdução de contaminantes indesejáveis na propriedade, a necessidade imperativa de ciclagem biológica adequada desse material e um controle de resíduos contaminantes, como os metais pesados muitas vezes presentes em proporções não permitidas. Vale ressaltar que esta é uma alternativa tolerada pela legislação brasileira devido à carência e dificuldade na obtenção de fertilizantes orgânicos de qualidade pelos produtores(!). Considero essa dependência do esterco de aves de origem externa para as propriedades de produção orgânica uma ação desaconselhável.

 

Nesta lacuna, a inserção da produção animal pode ser considerada como uma importante alternativa. A obtenção de fertilizantes a baixo custo, a ciclagem de nutrientes e o aproveitamento de restos de culturas, consorciados com a produção de proteínas de alto valor biológico, são fatores importantes e que podem estabelecer uma solução natural entre a inconsistência e a sustentabilidade de uma propriedade orgânica.

 

A produção de biofertilizantes nas propriedades, tendo como base o esterco fresco de bovinos, é uma prática consolidada na produção orgânica e serve como exemplo quando se almeja melhorar a qualidade biológica dos solos e aumentar a biodisponibilidade de nutrientes para as plantas. Através de inoculação de microrganismos vivos, presentes no rúmen dos bovinos sobre uma enorme variedade de substratos, consegue-se transformar resíduos da produção em produtos “ricos”, os quais podem ser usados como adubos e viabilizar a ciclagem de nutrientes dentro da propriedade, extinguindo a necessidade de compra de fertilizantes. Essa prática, no entanto, só se torna possível com a presença de bovinos na propriedade.

 

A produção de suínos pode trazer diversas vantagens para a propriedade orgânica. Os porcos, além de aproveitarem muito bem uma diversidade de subprodutos vegetais oriundos dos cultivos da propriedade, podem ser criados em consórcios com áreas de florestamento sem impactá-los negativamente. Além disso, servem de “aeradores” e “reviradores” nos processos de compostagem da propriedade, podendo suprimir a atividade humana deste serviço.

 

A produção de frangos ou ovos em sistemas de galinheiros móveis desempenha um importante papel na fertilização de terrenos de cultivo vegetal e no controle de parasitas nos locais de pastoreio das galinhas. O conhecido produtor norte-americano Joel Salantin relata que seu sistema de produção de frangos em gaiolas móveis sobre pastagens atinge uma sustentabilidade econômica contabilizando apenas a melhoria da qualidade dos solos onde as aves são manejadas.

 

Na realidade, a presença de animais em sistemas de produção traz consigo a introdução de um novo universo de microrganismos, não só adaptados com o metabolismo de seus hospedeiros, mas também altamente capacitados em interagir com o meio, promovendo e refinando as interações solo/ar/plantas, trazendo mais eficácia nestas relações e, com isso, uma maior produtividade ao sistema de produção.

 

Por outro lado, tem sido fortemente sugerido pela pesquisa cientifica que o incremento do microbioma dos solos é um fator promotor de saúde para a população humana, ressaltando o aspecto imunológico. Em linhas gerais, estas pesquisas indicam que, quanto maior a densidade e diversidade de nutrientes e elementos desejáveis disponibilizados pelos alimentos, maior a capacidade de desenvolvimento de atividades biológicas refinadas no ser humano, muitas das quais só são possíveis de ocorrerem em situações especiais e na presença de alguns elementos, como alguns microminerais já exauridos dos solos nos sistemas convencionais de produção. Estes, comprovadamente, são encontrados em solos de cultivo com um microbioma diverso e saudável.

 

Considerando estas evidencias até certo ponto óbvias para estabelecer sistemas sustentáveis dentro do contexto orgânico, estabelece-se um questionamento natural: por que sistemas de produção animal ainda não fazem parte da maioria das propriedades orgânicas?

 

Tenho tentado entender melhor esta questão e reconheço “gargalos” para implementação da produção orgânica animal, tais como alguns aspectos contraditórios da nossa legislação, a ausência de políticas de inspeção e fiscalização para esta produção, e a dificuldade em adquirir e ou produzir produtos orgânicos para alimentação animal em escala comercial. Sobretudo, creio que algumas das respostas estão basicamente relacionadas à falta de apropriação de conhecimentos específicos por profissionais da área de produção animal capazes de atuarem nestes sistemas.

 

*Médico Veterinário (CRMV/RS 5913), integrante da Comissão de Pecuária Orgânica do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul e produtor de ovos orgânicos.



19/08/2020

Opinião: animais no mundo pós-pandemia

*Por Angela Escosteguy

 

Devido ao grande impacto do coronavírus na saúde e nas economias das populações de todo o planeta a humanidade busca não só formas de se defender dos sintomas, como também estuda as suas causas para evitar outros surtos no futuro. Já que a Covid-19 é uma zoonose, isto é, passa dos animais para os humanos, temos uma série de interrogações relacionadas com os animais, desde como o vírus sai dos animais silvestres ou de processos produtivos de animais domésticos, chegando a nós, que também somos animais e transmitimos o vírus uns para os outros. O fato é que as zoonoses estão aumentando em quantidade e intensidade e as doenças estão passando cada vez mais dos animais para os humanos e, portanto, ações são necessárias para identificar o papel dos animais silvestres e dos animais domésticos neste contexto.

 

Na primeira semana de julho, as Nações Unidas (ONU) publicou o relatório “Prevenir a Próxima Pandemia - Doenças Zoonóticas e Como Quebrar a Cadeia de Transmissão” onde citam as tendências globais que sustentam a pandemia. O relatório é um esforço conjunto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e do Instituto Internacional de Pesquisa Pecuária (ILRI) e foi elaborado por mais de 100 especialistas provenientes de universidades, instituições de pesquisa e agências da ONU. “A ciência é clara ao dizer que, se continuarmos explorando a vida selvagem e destruindo os ecossistemas, podemos esperar um fluxo constante de doenças transmitidas de animais para seres humanos nos próximos anos”, afirmou a diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Inger Andersen.

 

Esta crise está provocando uma grande oportunidade de examinarmos e melhorar, não só a maneira como tratamos a natureza e os animais silvestres, mas também a maneira como estamos criando os animais de produção. Os animais são importante parte dos ecossistemas no planeta, além disso, “mais de um bilhão das pessoas mais pobres do mundo contam com os animais para sua alimentação, transporte e meios de subsistência. (ONU, 2016).

 

O relatório aponta que as possíveis causas da pandemia estão associadas com a exploração da natureza, como a ocupação crescente de áreas silvestres, a destruição dos ecossistemas, a mudança climática, o aumento do consumo de proteína animal proveniente de criações intensivas, dentre outras causas. O estudo defende abordagem que une saúde humana, animal e ambiental para evitar futuras pandemias e alerta que se não quisermos que esta situação se repita, devemos nos relacionar de forma mais cuidadosa com a natureza. “desde 1940, medidas de intensificação agrícola, como barragens, projetos de irrigação e fazendas industriais, têm sido associadas a mais de 25% de todas - e mais de 50% de doenças infecciosas zoonóticas - que surgiram em humanos.”

 

SISTEMAS DE CRIAÇÃO

 

O aumento da demanda por alimentos de origem animal estimulou a intensificação e industrialização da produção animal. Especificamente em relação aos animais de produção, o relatório explica que a passagem de microrganismos patogênicos aos humanos está aumentando devido a maneira como os animais são criados e mantidos nos sistemas intensivos. “ Os surtos de doenças por coronavírus surgiram após a intensificação de práticas e sistemas agrícolas e mudanças drásticas na maneira como os animais são mantidos ou criados, muitas das quais foram feitas sem que sejam tomadas as devidas medidas de precaução. Por exemplo, o surgimento do vírus da bronquite infecciosa nos EUA foi associado à intensificação dos sistemas de aves após a Primeira Guerra Mundial, com base no confinamento das aves - resultando em maior estresse e contatos mais frequentes e nas novas técnicas de criação resultando em menor variação genética e resistência a doenças.” O mesmo foi apontado no relatório como tendo acontecido com enfermidades de suínos nos sistemas intensivos pós- Segunda Guerra Mundial.

 

SUSTENTABILIDADE NAS CRIAÇÕES

 

Toda produção de alimento tem impacto ambiental e quanto mais intensificada pior. É fundamental adotarmos formas de produção sustentáveis, gerando alimentos e renda. Esta pandemia, e a possibilidade que outras poderão vir, aumentou drasticamente a necessidade de avaliarmos criteriosamente os sistemas de criação dos animais, o que inclui principalmente o estudo do seus impactos no ambiente e no bem-estar dos animais. Alias, antes mesmo desta crise, o conceito de sustentabilidade nas criações animais já vinha evoluindo. Durante muito tempo sustentável significava ser capaz de utilizar os recursos e os bens da natureza sem comprometer a disponibilidade desses elementos para as gerações futuras. Atualmente para ser considerado sustentável o modelo adotado deve considerar o impacto não somente no ambiente, mas também nos animais e nas pessoas. “Um modelo sustentável deve suprir as necessidades dos animais proporcionando o bem-estar, permitir a coexistência com a diversidade de organismos nativos, minimizar a pegada de carbono e proporcionar qualidade de vida justa para as pessoas que ali trabalham” (conceito proposto por Broom, 2008).

 

Nesta definição se enquadram os sistemas orgânicos e de base agroecológica, onde os animais são mantidos soltos mas controlados, convivendo em harmonia com a flora e fauna nativa e fertilizando o solo, como sempre ocorreu na natureza. Os herbívoros são especialmente importantes para a manutenção dos biomas pastoris, como o Pampa, por exemplo, mantendo assim os serviços ecossistêmicos essenciais das pastagens tais como captura e estocagem de águas, recarga dos aquíferos, captura e estocagem de carbono e polinização.

 

Se quisermos sonhar com um futuro mais saudável e harmonioso para humanos, animais e a natureza, teremos que evoluir para sistemas sustentáveis de criação animal. Já temos muitos exemplos aqui no Brasil e em vários países comprovando a viabilidade técnica e econômica dos sistemas de base agroecológica e orgânica que promovem cuidado ambiental, bem estar animal, gerando alimentos honestos, trabalho e vida justa para as pessoas envolvidas.

 

*Coordenadora da Comissão de Pecuária Orgânica do CRMV-RS; Presidente do Instituto do Bem-Estar – IBEM - www.ibem.bio.br. Contato: angelaibembrasil@gmail.com.



11/08/2020

Comissão de Pecuária Orgânica do CRMV-RS é destaque na edição 84 da Revista CFMV

PECUÁRIA ORGÂNICA É A NOVA COMISSÃO DO CRMV-RS


A forma de produção, os cuidados com o ambiente e o bem-estar animal têm sido cada vez mais levados em conta na hora de o consumidor adquirir produtos de origem animal. Atento a esse movimento e às vantagens do sistema de manejo, o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul (CRMV-RS) criou uma comissão dedicada ao tema, a primeira no Sistema CFMV/CRMVs.

A Comissão de Pecuária Orgânica, criada pela Portaria nº 33/2020, é composta pelos médicos-veterinários Angela Pernas Escosteguy (coordenadora), Márcia Monks Jantzen, Michele de Castro Iza, Carlos Roberto Vieira da Cunha, André Macke Franck, Eduardo Antunes Dias, Ricardo Lopes Machado, Flávio Zilken Meirelles Figueiredo, Alexandre Mendonça e Lisiane Feck Ávila.

As prioridades são divulgar e debater cientificamente o tema, propondo ações para difundir e expandir a pecuária orgânica e preparar os profissionais para atuar na área. Para manter a saúde dos animais, o modelo adota medidas preventivas que abrangem seleção e uso de raças resistentes, técnicas sanitárias, práticas de manejo preventivo e cuidados ambientais com resíduos da produção. Criações orgânicas priorizam o bem-estar animal, fornecendo alimentação orgânica e terapêuticas brandas, como homeopatia.

“É fundamental desmistificar ataques que atribuem à pecuária problemas ambientais. O problema não são os animais, mas a maneira como são criados”, aponta Angela, que esclarece que o sistema orgânico viabiliza a coexistência com espécies nativas: “Isso permite manter os serviços ecossistêmicos das pastagens e proporcionar qualidade de vida justa às pessoas que ali trabalham”.

Outro ponto crucial é mostrar à sociedade a importância de contar com a Medicina Veterinária e a Zootecnia nas ações de orientação e certificação desse sistema de criação animal. Para isso, planeja editar instruções e manuais voltados aos profissionais. Também haverá cursos, seminários, conferências e estudos em geral aos interessados em atuar na área. A ideia é estimular a publicação de trabalhos científicos, revistas e livros, de forma a contribuir para capacitar a cadeia da pecuária orgânica.

A comissão trabalhará, ainda, para incluir a disciplina Pecuária Orgânica no currículo dos cursos de Medicina Veterinária e Zootecnia. “O esforço para estimular ainda mais a adoção desse sistema tem reflexo direto no desenvolvimento ambiental, social e econômico, que é o conceito da produção orgânica: dar a mesma importância às três áreas, para que a atividade seja financeiramente viável, reduza impactos ambientais e estimule a participação da população local”, conclui Angela.

Para acessar a revista, basta acessar o link certidao.cfmv.gov.br/revistas/edicao84.pdf.



07/08/2020

Artigo: A pecuária do futuro

*Por Michele de Castro Iza, Auditora Fiscal Federal Agropecuária e integrante da Comissão Pecuária Orgânica do CRMV-RS

 

Em 1962, no auge da produção química nos Estados Unidos da América, a bióloga Raquel Cerson publicou o livro “Primavera Silenciosa”. A obra relata os impactos negativos das ações humanas, guiadas por interesses econômicos, sobre o ambiente, os animais e as pessoas. Essa narrativa que traz a conexão dos seres com o planeta volta atualmente nas discussões científicas, com o conceito de saúde única, e na preocupação popular com a saúde e com o bem-estar das pessoas e dos animais e com a preservação do meio ambiente.

 

No Brasil, essa discussão já ocorre há décadas e está regulamentada desde 2003, através da Lei nº 10.831/MAPA que dispõe sobre a agricultura orgânica. Em complementação à lei, o Decreto nº 6323/2007 e a Instrução Normativa nº 46/2011, que está em processo final de atualização, regulamentam as normas para a produção orgânica animal.

 

Embora ainda considerada por alguns uma prática limitada à pequena produção agrícola, o sistema orgânico hoje se mostra eficiente, tecnificado e primordialmente ecológico. O número de unidades de produção orgânicas no país cresceu 300% de 2010 a 2018, tendo participação nas mais diversas áreas de produção animal e vegetal, processamento e extrativismo. No Rio Grande do Sul, são vários os criadores que praticam a produção animal orgânica.

 

Temos exemplos de pecuária leiteira e de corte, de aves de postura e de corte, de ovinocultura, de suinocultura e de apicultura certificados ou em processo de conversão. Somente na Região Metropolitana de Porto Alegre, existem 10 granjas de ovos orgânicos devidamente certificadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e essas não atendem à demanda dos consumidores das feiras orgânicas da capital gaúcha.

 

Quando visualizamos, nas cadeias de produção e de consumo, pessoas conscientes em suas ações, entendemos a importância do médico veterinário e do zootecnista em auxiliar nessa busca por sustentabilidade. Atentando para este seguimento em expansão, a Comissão Pecuária Orgânica criada pelo Conselho trabalhará fortemente com o tema. Convidamos os colegas a praticarem a pecuária do futuro, onde a aplicação dos conceitos de saúde única e agroecologia já é realidade. Conheçam a produção animal orgânica!






SEDE - PORTO ALEGRE
Rua Ramiro Barcelos, 1793 / 201
Independência - Porto Alegre - RS
CEP: 90035-006
Fone: (51) 2104-0566
Email: crmvrs@crmvrs.gov.br
Das 9h às 16h sem fechar ao meio dia


UNIDADE DE ATENDIMENTO NO INTERIOR - PELOTAS
Rua Félix Xavier da Cunha, 705
Salas 513 e 514 - Galeria Firenze
Centro - Pelotas - RS
CEP: 96010-000
Fone: (53) 3227-0877
Email: pelotas@crmvrs.gov.br
Das 9h às 12h e das 13h às 16h
UNIDADE DE ATENDIMENTO NO INTERIOR - CAXIAS DO SUL
Avenida Júlio de Castilhos, 1259/1003
Centro - Caxias do Sul - RS
CEP: 95010-003
Fone: (51) 99465-0491
Email: caxiasdosul@crmvrs.gov.br
Das 9h às 12h e das 13h às 16h

UNIDADE DE ATENDIMENTO NO INTERIOR - SANTA MARIA
Alameda Antofogasta 77 / Sala 409
Santa Maria - RS
CEP: 97050-060
Fone: (55) 3223-6824
Email: santamaria@crmvrs.gov.br
Das 9h às 12h e das 13h às 16h
UNIDADE DE ATENDIMENTO NO INTERIOR - PASSO FUNDO
Rua Teixeira Soares, 1075/804
Centro - Passo Fundo - RS
CEP: 99010-140
Fone: (54) 3317-2121
Email: passofundo@crmvrs.gov.br
Das 9h às 12h e das 13h às 16h

UNIDADE DE ATENDIMENTO NO INTERIOR - BAGÉ
Rua Bento Gonçalves, 285/804
Centro - Bagé - RS
CEP: 96402-080
Fone: (51) 99180 8370
Email: bage@crmvrs.gov.br
Das 9h às 12h e das 13h às 16h